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terça-feira, 27 de agosto de 2024

Cinema, «um divertimento vulgar»

  [alcançada a p. 172, hoje de manhã]

RECORTE(s)

     Quanto ao cinema, os meus pais consideravam-no um divertimento vulgar. Julgavam Charlot demasiado infantil, até para crianças. No entanto, quando um amigo do papá nos arranjou um convite para uma projeção privada, vimos uma manhã, numa sala dos boulevards, L' Ami Fritz; todos concordaram que a fita era deliciosa. Semanas mais tarde, assistimos, nas mesmas condições,  ao Rei da Camargue. O herói, noivo de uma camponesa doce e loira, passeava a cavalo à beira-mar; encontra lá uma cigana nua de olhos faiscantes, que chibateava o seu cavalo; fica embasbacado durante longos momentos; mais tarde, fecha-se com a bela morena num casebre, no meio do pântano. Reparei que a minha mãe e a avó trocavam olhares apavorados ; a sua inquietação acabou por me alertar e adivinhei que aquela história não era para a minha idade. [...]
[sublinhados acrescentados]

Simone de Beauvoir (1908-1986), Memórias de uma menina bem-comportada (1958), 2023, p. 64

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Doris Day vista do cemitério

      «Um dos primeiros filmes que vi (talvez tivesse uns onze ou doze anos) era com Doris Day. O cinema da freguesia estava a ser construído e, como a maioria dos espectáculos era para «Maiores de 16 anos», um grupo de rapazes saltava a parede do cemitério, contígua a uma das paredes do edifício em construção, e víamos os filmes do cemitério. Não ouvíamos o som mas, apesar disso, desfrutávamos muito da camaradagem e dos filmes. Íamos ao cinema - ou às fitas, como quase todos diziam - ao cemitério![...]»

              Francisco Cota Fagundes, No fio da vida - Uma odisseia luso-açoriana, 2013, p. 57 [edição em inglês de 2000]; [datado de 1990]

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Ainda há cinemas...

 - sala «dos anos 70» resiste em São Bartolomeu de Messines, com muitos lugares vazios nas «Estreias» - Artigo da Série «Expresso 50»;

RECORTE:

[...] Natural de São Bartolomeu de Messines, António Oliveira descobriu o cinema em Alcácer do Sal, onde viveu parte da sua juventude. “Na primeira classe nem sabia que existia cinema. Um padre ia à escola com uns projetores antigos passar filmes pequenos para nós vermos. Uma vez aquilo avariou e levaram-nos a uma sessão no cineteatro. Foi a primeira vez que entrei num cinema. A partir daí fiquei a adorar”. Ainda se lembra da fita: O Fantasma do Amor. [...]


quarta-feira, 2 de agosto de 2023

cinema em Hammars

 RECORTE(S): [...] à noite o gabinete transformava-se em cinema. O pai tirava um lençol branco de uma mala preta, apagava a luz, e o filme podia começar . [...] convertia-se numa tela de cinema branca como o leite e tão grande que cobria toda a parede como a vela desfraldada de um navio.
   Numa salinha, separada do escritório por um tabique com painéis de vidro, encontravam-se os projectores. Nos primeiros anos era o pai que projectava os filmes, mas depois ensinou o filho Daniel [...] A menina não podia tocar nos projectores, [...]


Bergman e a filha na rodagem de Sonata de Outono (1978) do «DN», 24-07-2023

   Nos primeiros anos, a menina tinha a sua própria sessão de cinema às seis e meia da tarde. Senta-se na grande poltrona puída e pousa as pernas num pufe. A mala preta abre-se e a tela é estendida. A menina é magra como um espeto. Tem cabelo comprido e desgrenhado e dentes de coelho. O pai apagou a luz, fechou a porta e espera do lado de fora. [...] As janelas do gabinete estão fechadas, tudo está escuro e em silêncio. [...]

Linn Ullmann, Os inquietos, 2023, p. 28

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Sissi-Schneider no «Salão Portugal» + «quinze minutos à belenenses», Vítor Serpa

 - inteiramente lida ontem à tarde, na CUF-DESC., durante as 3 horas do Exame da General, esta Evocação da Infância do menino da «Travessa da Memória» e de entre Belém, Restelo e Ajuda, de 2008, há muito «em Espera»... 

[também se viu, na 2.ª, o Restelo de Manuel Sérgio, na «1.ª Pessoa», de F. C. F.]

RECORTE(S):

[...] Foi assim que me perdi de amores pela Sissi.
     Deparavam-se duas dificuldades decisivas para me atrever a conquistá-la. A primeira, é que ela vivia muito longe da Travessa da Memória, algures num palácio dos arredores de Viena; a segunda é que o filme era para mais velhos e eu ainda andava iniciado, com ajuda da Dona Amália, conhecida da minha avó,  nos filmes para doze.
      Não há nada, porém que um coração apaixonado com onze anos não consiga, e passados dez dias de sublimes ideias a tentar convencer o Gonçalves, velho porteiro, heróico sofredor das pontada da gota, [...] eis que me é oferecida a oportunidade única de uns últimos quinze minutos à belenenses, esgueirando-me pelo reposteiro áspero e estarrecido, [...]e irrompendo, triunfante, embora furtivo, no cimo desse morro alto, que era o primeiro balcão.
    Na minha frente, a deslumbrante visão de Romy Schneider em cinemascope, sorriso rasgado, cabelo de rolos doirados, aqueles olhos bíblicos. [...]

Vítor Serpa, Salão Portugal - Novos Contos da Velha Lisboa, D. Quixote , 2008, pp. 38-39

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O menino que aprendeu a ler nos anúncios dos filmes (Jorge Calado)

 "Aprendi a ler por curiosidade. Deitado no chão de barriga para baixo, debruçado sobre a página três d'O Século gostava de decifrar os anúncios vistosos - embora a preto e branco - dos filmes em exibição nos cinemas de Lisboa: primeiro os títulos, depois e mais complicado, os nomes das estrelas, quase sempre estrangeiras. Já tinha decorado as letras do alfabeto mas não as sabia juntar. Por isso ia perguntando à minha mãe e ao meu pai: «como se lê g-u-e?», e assim sucessivamente. (Seria, talvez, o filme Sangue  e Arena, com Tyrone Power e Rita Hayworth). Até que um dia lhes anunciei que no Capitólio ou no Condes ia o filme tal e tal, e eles descobriram com espanto que era verdade! Poucos meses depois, quando completei cinco anos, tive duas prendas inusitadas: uma modesta sacola [...] e a primeira ida ao cinema, ao Éden, para ver o Aniki Bóbó (1942), de Manuel. de Oliveira. Os dois presentes estavam ligados: aprendera a ler motivado pelos bonecos do cinema."

Jorge Calado, Mocidade portuguesa - Olhares, 2022, p. 83

domingo, 11 de abril de 2021

«desgostos fílmicos»...; M. E. C.

 - «Crónica sobre os primeiros filmes...», com alguns trocadilhos...; , a de 5 de Abril, só hoje, domingo, lida;

RECORTEs:

[...] Os meus pais chateavam-me para que explicasse porque é que não gostava. [...] Eu usava a minha fúria – de ter de estar a ver uma coisa que não me agradava – para dizer mal do filme, de preferência de uma maneira que amolgasse um bocadinho o prazer deles.

Essa prática crítica não ajuda apenas a dizer mal. A experiência de ver maus filmes ajuda-nos mais tarde a detectar os maus filmes [...]
Poupa-nos horas e dias e anos de desgostos fílmicos. Aprendemos a ler os sinais – os primeiros planos, as primeiras falas, o guarda-roupa, a qualidade dos enquadramentos – e assim desenvolvemos uma capacidade diabólica para fugir da cruz. [...]

domingo, 10 de maio de 2020

«Cinema Paraíso», N. Júdice

VEM AÍ O CINEMA

O homem do cinema ambulante ainda passeia
a sua carrinha com altifalante nas ruas do Paraíso.
Com a voz rouca dos ecos e do microfone
avariado anuncia o filme da noite, apregoa
a força do herói e a beleza da rapariga,
e tudo naquela noite que não chegará porque
o seu tempo passou. Mas o homem conduz
a carrinha sem ver que as casas da aldeia
há muito caíram, que o clube onde os filmes
se projectavam ficou sem telhado há muitos
invernos, que já nem se vê um gato vadio
nas ruas desertas nem nos muros onde a erva 
cresce. Mas o homem, agarrando com uma
das mãos o volante, e com a outra o microfone,
continua a anunciar o filme em que todos os índios
morrem e o cowboy se casa com a forasteira
que chega da cidade, de vestido de salão
e cabelos louros bem penteados apesar
dos ventos e do sol da viagem. Atrás dele,
na carrinha, a máquina de projectar já perdeu
as lentes e a velha película, de tanto passar,
desfaz-se nos dedos. Mas o homem
continua a procurar, nas ruas do Paraíso,
a rapariga dos bilhetes para lhe pedir que o leve
até junto dos cowboys, dos índios e da forasteira
loura, para lhes ensinar o caminho até ao grande ecrã que
o vento rasgou e ondula, como grande bandeira, 
nas ruas do Paraíso.


Nuno Júdice, O Mito de Europa, 2017, pp. 61-62

sexta-feira, 24 de abril de 2020

«Cinemínimo» - M. do Rosário Pedreira

- no verbete de hoje, M. do R. P. explica por que é esta  a sua última crónica - dedicada ao (seu) percurso de espectadora e (à alteração dos) «aos modos de ver» Cinema
RECORTE:
[...] Eu comecei a ver cinema em criança nas férias de Verão, nos Bombeiros do Estoril, ainda com meia sala ao ar livre; os cortes da censura ainda eram visíveis como bainhas mal costuradas, mas toda a gente entrava, independentemente da idade. Foi lá que vi, por exemplo, Blow-Up ou Os Cavalos também Se Abatem com 9 ou 10 anos, embora aos 14, já em Lisboa, a minha mãe me tenha proibido de ir ver Amarcord com rapazes... [...]

sexta-feira, 17 de abril de 2020

«A última sessão» - Dulce Cardoso

[.. é o título do filme de 1970, de Peter Bogdanovich...]; nesta narrativa de 23 - 03, D. M. C. evoca as idas ao Cinema na Luanda da Infância...

RECORTE INICIAL:
    Fazia finalmente parte do grupo das matinés dos mais velhos. É certo que isso acontecera por imposição da minha mãe e não por vontade da minha irmã e dos restantes membros do grupo, mas não me interessava. Ir ao Miramar sem ser atrelada a um adulto causou-me borboletas na barriga, sentia-me livre, ainda que não o soubesse nomear.
       Parámos à entrada, em frente dos cartazes, e o Rui tentou adivinhar a história do filme que íamos ver, Dois Homens e Um Destino. A minha irmã e a Editinha suspiraram pelo Paul Newman, O Robert Redford também é um grande borracho, disse a Anita. O Garrincha e o Nando garantiram a pés juntos que nenhuma mulher sorria como a Katharine Ross. Não conseguia repetir os nomes dos atores e parte das conversas da minha irmã e dos seus amigos era-me incompreensível. Quando o filme começou e me submergiu num mundo tecnicolor, estremeci com o impacto violento do som, a brisa arrepiou-me, o Miramar não tinha paredes e usava o céu como teto, a Baía de Luanda ficava logo atrás do ecrã gigante, havia os jardins em socalcos, era tudo tão diferente, tão maior, tão mais bonito do que o África, o cinema do nosso bairro. Era difícil seguir o enredo, a rapidez com que as legendas se sucediam atrapalhava-me a leitura, estava sempre a perguntar à minha irmã, O que é que eles disseram?, a maior parte das vezes recebia de volta uma cotovelada, Se não te calas nunca mais te trago.
[...]
[Página com as narrativas já publicadas até à data: AQUI]