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sexta-feira, 27 de junho de 2025

Júdice no «734»

 AO ACASO DA ESTANTE 

Abro um livro de poesia, gasto pelos anos, 
e de dentro dele saem dois bilhetes de cinema 
e uma fotografia. Já não me lembro que filme 
foi esse que vimos, numa tarde de outono; mas 
o teu rosto, de súbito, ganha uma realidade que 
o tempo gastou, tanto como esse livro de poesia, 
que nunca cheguei a ler. No entanto, se esses 
poemas não me ficaram na memória, o teu nome, 
os teus olhos, as tuas mãos que escorregavam 
pelo amor de uma tarde de cinema, ainda 
hoje permanecem comigo. Onde estás? Que 
fazes? Que voltas deste na tua vida? Mas 
não procuro respostas: e assim te voltei 
a guardar, nesse livro que já não sei 
onde está, na mesma página em que pus 
os bilhetes de um cinema que há muito fechou. 
                
              Nuno Júdice, Uma Colheita de Silêncios, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2023, p. 44.
                                                       [no «734», ontem]

terça-feira, 18 de agosto de 2020

«ingmar bergman», Nuno Júdice

                                    TERAPIA

O ingmar bergman gostava de bolachas
maria, e tinha sempre com ele um pacote para ir
comendo quando o estômago lhe doía. Em vão
a Morte, para o distrair, lhe punha à frente
o tabuleiro de xadrez; de nada servia a jovem
mónica despir os seios para que o desejo
saísse de dentro da blusa; e foi inútil terem 
queimado a bruxa, à frente dos artistas 
ambulantes, como se alguém pensasse que 
ela trocaria o amor pelo Bode dos Infernos. Sempre,
o bergman tirava as bolachas do bolso e comia,
uma após outra, para que a Morte não lhe desse 
o xeque-mate, a mónica não voltasses a cobrir 
os seios e a bruxa não se benzesse em frente
do Bode. Não sei porquê, também eu gosto
de bolachas maria, e quando as como não penso
na Morte, ainda menos na jovem de seios 
despidos, e nem pensar que olho para a fogueira
onde a bruxa arde sem um grito. A única coisa
que me faz doer o estômago, como ao bergman,
é não saber, quando as tenho na boca, porque
é que as bolachas se chamam maria.

Nuno Júdice, Regresso a um cenário campestre, 2020, p. 77

segunda-feira, 18 de maio de 2020

«jean seberg», Nuno Júdice

O EFEITO DO CINEMA NA CABEÇA DE QUEM NÃO VAI AO CINEMA

A jean seberg vendia o herald tribune nos filmes
de godard, e eu procurava troco na carteira
para lhe comprar o jornal. Ela dizia-me que
não era preciso dar troco, e eu dava-lhe uma nota
para ela me dar o jornal, e era como se já 
o tivesse lido nos seus olhos. A jean seberg
tinha cortado o cabelo para aparecer nos filmes
de godard como um efebo, e quando eu lhe comprava
o jornal era como se ela me dissesse que estava 
a comprar uma ambiguidade de sexos, que
não vinha na primeira página do jornal, mas 
que eu podia ler nos seus lábios quando ela
me pedia que não lhe desse troco, e eu me limitava
a dar-lhe uma nota para não ter de andar mais tempo
à procura de moedas, o que me impedia de
olhar para os seus olhos onde podia ler a
previsão meteorológica para o próximo milénio,
como se jean seberg fosse o céu sem estações
e no seu rosto se fixasse a eternidade de uma 
beleza sem princípio nem fim. Mas isso era
quando a jean seberg aparecia nos filmes de godard,
e quando deixou de aparecer o tempo voltou
ao seu ritmo normal, o herald tribune deixou
de me interessar, e já não precisava de procurar
trocos para comprar jornais que nunca iria ler,
porque o que eu queria ler estava nos olhos
de jean seberg, e eles tinham-se apagado.


Nuno Júdice, Guia de conceitos básicos, 2010, pp. 70,71

domingo, 17 de junho de 2018

Marylin, «Salto da fé», Rosa Oliveira

para primeira inserção, Marylin, por Rosa Oliveira:

salto da fé

aí vem o inevitável poema sobre marilyn
percebi ao pequeno almoço
no dia mais quente do ano

norma jean gostava de esvaziar a tripa
talvez de barriga menos inchada
os vestidos niagaras fossem indolores
talvez o intestino limpo
lhe desse a leveza que os analistas
não logravam
talvez quisesse preparar o traseiro
para presidentes
senadores, capatazes
sem contar com dramaturgos.
enfim, rapazes...

de qualquer modo
esvaziava a tripa
antes de ler obras difíceis
e sérias
pois era rapariga de alto
saturno

ler kierkegaard
de intestino solto
é outra coisa

a pobre da regine olsen
é que provavelmente não sabia

Rosa Oliveira, Tardio, Tinta-da-china, 2017 (março), p. 78

[fica repetido, visto que já estava AQUI]