- a publicação da «Novela Gráfica», levou R. a reler «Caderno de Memórias Coloniais» (de 2009)
RECORTE (s) da narrativa:
[...] Ao domingo à tarde íamos ao cinema. O cinema da Machava passava
sessão dupla, com intervalo de meia hora entre cada filme; os mufanas calçados
vinham vender Quibons geladinhos aos brancos, e chupas em pirâmide às
crianças dos brancos.
A enorme sala do cine Machava dividia-se em três zonas bem definidas:
bancos corridos de pau, à frente: primeira plateia; bancos individuais estofados,
até ao fundo: segunda plateia; empoleirados metro e meio acima da última fila
da segunda plateia, os camarotes, todos forrados a veludo vermelho, luxo dos
luxos, só ocupados quando o filme era mesmo muito popular e a afluência o
exigia. Filmes como O Fado, A Maluquinha de Arroios. Cantinflas, Jerry Lewis
e Trinitá enchiam camarotes.
Alguns negros iam ao cinema. Calçavam-se e vestiam roupa europeia
remendada ou de imitação, costurada no caniço. Sentavam-se na primeira plateia, e, eventualmente, em dias pouco
frequentados, na primeira fila da segunda plateia. [...]
Isabela Figueiredo, Caderno de memórias coloniais (2015, 6.ª edição revista e aumentada), p. 84