segunda-feira, 15 de junho de 2026

Cine Machava

 - a publicação da «Novela Gráfica», levou R. a reler «Caderno de Memórias Coloniais» (de 2009)

RECORTE (s) da narrativa:

       [...] Ao domingo à tarde íamos ao cinema. O cinema da Machava passava sessão dupla, com intervalo de meia hora entre cada filme; os mufanas calçados vinham vender Quibons geladinhos aos brancos, e chupas em pirâmide às crianças dos brancos. A enorme sala do cine Machava dividia-se em três zonas bem definidas: bancos corridos de pau, à frente: primeira plateia; bancos individuais estofados, até ao fundo: segunda plateia; empoleirados metro e meio acima da última fila da segunda plateia, os camarotes, todos forrados a veludo vermelho, luxo dos luxos, só ocupados quando o filme era mesmo muito popular e a afluência o exigia. Filmes como O Fado, A Maluquinha de Arroios. Cantinflas, Jerry Lewis e Trinitá enchiam camarotes. 
    Alguns negros iam ao cinema. Calçavam-se e vestiam roupa europeia remendada ou de imitação, costurada no caniço. Sentavam-se na primeira plateia, e, eventualmente, em dias pouco frequentados, na primeira fila da segunda plateia. [...]

        Isabela Figueiredo, Caderno de memórias coloniais (2015, 6.ª edição revista e aumentada), p. 84

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