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quarta-feira, 9 de março de 2022

«beavar canal»; Ruy Belo

NO WAY OUT

Sei hoje que sou pequeno
e não é esse o meu menor mal
mas faço meus os problemas
da gente de beavar canal

Nasci numa aldeia perdida
nestes caminhos de portugal
mas tanto tenho irmãos aqui
como os tenho em beavar canal

Eu a miséria da minha terra 
contemplei-a ao natural
enquanto vi no cinema
como se vive em beavar canal

 Mais do que a pedra mais do que a árvore 
o homem é para mim real
e tanto sofre a dois passos de mim
como sofre em beavar canal

Não há país que não seja meu
em qualquer parte morro pois sou mortal
mas aproveito a força da rima
para dizer que a minha rua é beavar canal

Morra eu dividido aos quatro ventos
seja o legado sentimental
fique no mundo onde ficar
deixo o meu coração a beavar canal

Ruy Belo, Homem de palavra(s), 1970

quinta-feira, 25 de março de 2021

«Esplendor na relva», Ruy Belo

 - (re)localizado artigo de Luís Miguel Queiroz, no «Público», em 2015 -«Uma poesia que aprendeu a ver...» sobre o poema inspirado no  filme de Elia Kazan, roteirizando a sua possível datação e processo de escrita, com reprodução de manuscrito e dactiloscrito de mesmo [...]

ESPLENDOR NA RELVA

Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

Ruy Belo, Homen de palavra(s); verificado na p. 333 da edição de 2009, de Todos os poemas 

terça-feira, 10 de março de 2020

«...meu irmão humphrey bogart», Ruy Belo

HUMPHREY BOGART

Era a cara que tinha e foi-se embora
mas nunca foi tão visto como agora
O seu olhar é água pura água
devassa-nos dá nome mesmo à mágoa
Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
não é verdade meu irmão humphrey bogart?

Ruy Belo, Homem de palavra(s), 1970