quarta-feira, 9 de março de 2022

«beavar canal»; Ruy Belo

NO WAY OUT

Sei hoje que sou pequeno
e não é esse o meu menor mal
mas faço meus os problemas
da gente de beavar canal

Nasci numa aldeia perdida
nestes caminhos de portugal
mas tanto tenho irmãos aqui
como os tenho em beavar canal

Eu a miséria da minha terra 
contemplei-a ao natural
enquanto vi no cinema
como se vive em beavar canal

 Mais do que a pedra mais do que a árvore 
o homem é para mim real
e tanto sofre a dois passos de mim
como sofre em beavar canal

Não há país que não seja meu
em qualquer parte morro pois sou mortal
mas aproveito a força da rima
para dizer que a minha rua é beavar canal

Morra eu dividido aos quatro ventos
seja o legado sentimental
fique no mundo onde ficar
deixo o meu coração a beavar canal

Ruy Belo, Homem de palavra(s), 1970

sábado, 19 de fevereiro de 2022

O menino que ia ao Chiado Terrasse OU «Dava um ano de ordenado...»

 - M. BIC., do 3.º Bloco, DISL., «atordoada» com a Escrita Saramag., veio colocar uma questão que «conduziu» a Almada e a Lobo Antunes....; 

-  R.  enviou-lhe o Endereço (da «Visão») onde «repousam» Crónicas de L. A. [por enquanto, e sabe-se lá até quando...];

- releu algumas e coloca aqui o recorte inicial da intitulada: «Dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida»   [de 2017]


(Susa Monteiro)

Porque cruel motivo nenhum cinema passa os filmes de que mais gostei na vida e dos quais tenho uma saudade infinita? Escrevo isto e lembro-me logo de uma frase de Dinis Machado em “O que diz Molero”: “Ó país de cristal que longe eu estou; dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida”. Dava mais do que um ano de ordenado, dava tudo para tornar a ver os desenhos animados da minha infância, que a tia Madalena nos levava a assistir aos domingos à tarde, num sítio chamado Chiado Terrasse, que de certeza já não existe e onde me sentia o garoto mais feliz do mundo. As luzes apagavam-se devagarinho, o écran iluminava-se e principiava a minha alegria, uma alegria como nunca voltei a sentir. Não apenas a alegria: um prazer sem fim. [...]:

https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/2017-12-21-dava-um-ano-de-ordenado-por-um-minuto-da-minha-infancia-perdida/


domingo, 31 de outubro de 2021

«A nossa imaginação...»

     Da crónica de hoje de MEC - «Os mortos irrequietos», ora aí vai uma frase que poderia «arrumar com» «recente polémica» sobre os efeitos de uma série na FLIX...: 

[...] A nossa imaginação é mais terrível do que a imaginação industrializada que vai parar aos filmes. 

É por isso que há contos e livros que fazem mesmo medo, ao contrário de quase todos os filmes de terror: porque o trabalhinho final é feito por nós. [...]

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

«o cinema como arte narrativa» («Cry Macho») e «aproximar-se do paraíso»

- ontem, pelas 15 e 40, na base da ESCAD. principal da Escola do Paraíso,  «pedindo segredo»,  depois de falar da MANIF. dessa manhã, M. G. (30 PRIM., grande «cine-leitor»), revelou a R. que, vai [...] [«e o resto não se diz»]

Foto do «DN»

[...] criadores como Eastwood não abdicam de cultivar o cinema como uma maravilhosa arte narrativa. O prazer visceral de contar histórias não será o paraíso, mas anda lá perto.

[sublinhados acrescentados]

sábado, 17 de abril de 2021

«papas feitas» OU mais «desgostos fílmicos»

 - desta vez, M. E. C. , em «Papas feitas»,  «arrasa» as «séries», que, de tão banais ou iguais que são... [...]

RECORTE INICIAL:

Estava eu a tentar ver o primeiro episódio de uma nova série e a perder a paciência quando me amaldiçoei por ser tão esquisito. Para cada série ou filme que consigo ver até ao fim há vinte ou trinta ou quarenta dos quais desisto logo ao princípio. O que é que se passa? Será que vi filmes e séries a mais, que é cada vez mais difícil interessar-me? [...]

domingo, 11 de abril de 2021

«desgostos fílmicos»...; M. E. C.

 - «Crónica sobre os primeiros filmes...», com alguns trocadilhos...; , a de 5 de Abril, só hoje, domingo, lida;

RECORTEs:

[...] Os meus pais chateavam-me para que explicasse porque é que não gostava. [...] Eu usava a minha fúria – de ter de estar a ver uma coisa que não me agradava – para dizer mal do filme, de preferência de uma maneira que amolgasse um bocadinho o prazer deles.

Essa prática crítica não ajuda apenas a dizer mal. A experiência de ver maus filmes ajuda-nos mais tarde a detectar os maus filmes [...]
Poupa-nos horas e dias e anos de desgostos fílmicos. Aprendemos a ler os sinais – os primeiros planos, as primeiras falas, o guarda-roupa, a qualidade dos enquadramentos – e assim desenvolvemos uma capacidade diabólica para fugir da cruz. [...]

quinta-feira, 25 de março de 2021

«Esplendor na relva», Ruy Belo

 - (re)localizado artigo de Luís Miguel Queiroz, no «Público», em 2015 -«Uma poesia que aprendeu a ver...» sobre o poema inspirado no  filme de Elia Kazan, roteirizando a sua possível datação e processo de escrita, com reprodução de manuscrito e dactiloscrito de mesmo [...]

ESPLENDOR NA RELVA

Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

Ruy Belo, Homen de palavra(s); verificado na p. 333 da edição de 2009, de Todos os poemas 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A., a «Cinéfila» (Carta a...)

 A.:
O cinema «Ideal» é uma das raras «recuperações» de Cinemas «físicos» na Lisboa das últimas décadas...
Lá viu D., em Set. de 2014, com a General, a «adaptação pintada» de «Os Maias», por João Botelho, com presença (atrasada) deste...; 
Na Geografia de  Infância, era um dos Cinemas aonde D. ia, para as «Matinés» de sábado ou de domingo: aventuras, «coboiadas» e afins...; o outro era o «Cinearte», em Santos...; 
O «Ideal» de então tinha a alcunha de «Piolho», devido à literal proliferação desse bicho, na plateia «mal-cheirosa» de trabalhadores braçais, marítimos, operários, estivadores e outros...;
Foi lá que, após 75-76, viu «Saló...», de Pasolini («confusamente» integrado em ciclo de Filmes «Porno» - a Fase de então do «Ideal»...) ; saiu com «o estômago às voltas», e não foi só por causa dos cheiros... [então, a «Plateia», é melhor não a descrever...]
Depois, o Ideal teve a fase do «Cinema Indiano», por décadas, até ao Projecto acima referido: espaço para cinema de «qualidade»...

Tudo isto porque pode ver o filme de Abel Ferrara, também ele um cineasta «controverso», de 2014, na «RTP PlaY»; trata o «último dia» da vida de Pasolini; artista mais controverso, no Século XX europeu, dificilmente haverá...

Para ver «Saló...», convirá «proteger» o estômago... e o «resto»

Bons filmes, então, A.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

«ingmar bergman», Nuno Júdice

                                    TERAPIA

O ingmar bergman gostava de bolachas
maria, e tinha sempre com ele um pacote para ir
comendo quando o estômago lhe doía. Em vão
a Morte, para o distrair, lhe punha à frente
o tabuleiro de xadrez; de nada servia a jovem
mónica despir os seios para que o desejo
saísse de dentro da blusa; e foi inútil terem 
queimado a bruxa, à frente dos artistas 
ambulantes, como se alguém pensasse que 
ela trocaria o amor pelo Bode dos Infernos. Sempre,
o bergman tirava as bolachas do bolso e comia,
uma após outra, para que a Morte não lhe desse 
o xeque-mate, a mónica não voltasses a cobrir 
os seios e a bruxa não se benzesse em frente
do Bode. Não sei porquê, também eu gosto
de bolachas maria, e quando as como não penso
na Morte, ainda menos na jovem de seios 
despidos, e nem pensar que olho para a fogueira
onde a bruxa arde sem um grito. A única coisa
que me faz doer o estômago, como ao bergman,
é não saber, quando as tenho na boca, porque
é que as bolachas se chamam maria.

Nuno Júdice, Regresso a um cenário campestre, 2020, p. 77

segunda-feira, 18 de maio de 2020

«jean seberg», Nuno Júdice

O EFEITO DO CINEMA NA CABEÇA DE QUEM NÃO VAI AO CINEMA

A jean seberg vendia o herald tribune nos filmes
de godard, e eu procurava troco na carteira
para lhe comprar o jornal. Ela dizia-me que
não era preciso dar troco, e eu dava-lhe uma nota
para ela me dar o jornal, e era como se já 
o tivesse lido nos seus olhos. A jean seberg
tinha cortado o cabelo para aparecer nos filmes
de godard como um efebo, e quando eu lhe comprava
o jornal era como se ela me dissesse que estava 
a comprar uma ambiguidade de sexos, que
não vinha na primeira página do jornal, mas 
que eu podia ler nos seus lábios quando ela
me pedia que não lhe desse troco, e eu me limitava
a dar-lhe uma nota para não ter de andar mais tempo
à procura de moedas, o que me impedia de
olhar para os seus olhos onde podia ler a
previsão meteorológica para o próximo milénio,
como se jean seberg fosse o céu sem estações
e no seu rosto se fixasse a eternidade de uma 
beleza sem princípio nem fim. Mas isso era
quando a jean seberg aparecia nos filmes de godard,
e quando deixou de aparecer o tempo voltou
ao seu ritmo normal, o herald tribune deixou
de me interessar, e já não precisava de procurar
trocos para comprar jornais que nunca iria ler,
porque o que eu queria ler estava nos olhos
de jean seberg, e eles tinham-se apagado.


Nuno Júdice, Guia de conceitos básicos, 2010, pp. 70,71

domingo, 10 de maio de 2020

«Cinema Paraíso», N. Júdice

VEM AÍ O CINEMA

O homem do cinema ambulante ainda passeia
a sua carrinha com altifalante nas ruas do Paraíso.
Com a voz rouca dos ecos e do microfone
avariado anuncia o filme da noite, apregoa
a força do herói e a beleza da rapariga,
e tudo naquela noite que não chegará porque
o seu tempo passou. Mas o homem conduz
a carrinha sem ver que as casas da aldeia
há muito caíram, que o clube onde os filmes
se projectavam ficou sem telhado há muitos
invernos, que já nem se vê um gato vadio
nas ruas desertas nem nos muros onde a erva 
cresce. Mas o homem, agarrando com uma
das mãos o volante, e com a outra o microfone,
continua a anunciar o filme em que todos os índios
morrem e o cowboy se casa com a forasteira
que chega da cidade, de vestido de salão
e cabelos louros bem penteados apesar
dos ventos e do sol da viagem. Atrás dele,
na carrinha, a máquina de projectar já perdeu
as lentes e a velha película, de tanto passar,
desfaz-se nos dedos. Mas o homem
continua a procurar, nas ruas do Paraíso,
a rapariga dos bilhetes para lhe pedir que o leve
até junto dos cowboys, dos índios e da forasteira
loura, para lhes ensinar o caminho até ao grande ecrã que
o vento rasgou e ondula, como grande bandeira, 
nas ruas do Paraíso.


Nuno Júdice, O Mito de Europa, 2017, pp. 61-62

sexta-feira, 24 de abril de 2020

«Cinemínimo» - M. do Rosário Pedreira

- no verbete de hoje, M. do R. P. explica por que é esta  a sua última crónica - dedicada ao (seu) percurso de espectadora e (à alteração dos) «aos modos de ver» Cinema
RECORTE:
[...] Eu comecei a ver cinema em criança nas férias de Verão, nos Bombeiros do Estoril, ainda com meia sala ao ar livre; os cortes da censura ainda eram visíveis como bainhas mal costuradas, mas toda a gente entrava, independentemente da idade. Foi lá que vi, por exemplo, Blow-Up ou Os Cavalos também Se Abatem com 9 ou 10 anos, embora aos 14, já em Lisboa, a minha mãe me tenha proibido de ir ver Amarcord com rapazes... [...]

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Ir ao Cinema, «pós-Covid»

- 6 horas, o habitual (primeiro) desligar da MÁQ APN
- duas filas, na escadaria para a bilheteira, a lembrar a do S. Jorge, mas mais alta; numa delas está D., sem saber para que filme irá comprar Ingresso [...] 
- grande balcão, em cima do qual está um saco com cerca de três quilos de maçãs, metade «Royal Gala», metade «Bravo Esmolfe», e um pequeno molho de notas de cinco euros [...]
- o vendedor: "Vai ser dois bilhetes, não?"; [em fundo, Cartazes, com imagens da II Guerra Mundial];  D. respondia que era só um, quando uma ventoinha, repentinamente ligada, fez voar as notas em todas as direcções; 
- corre pelo átrio a apanhá-las, sem ajuda de ninguém das Filas; regressa com oito (40 euros); ao mostrá-las ao vendedor, ouve-se os protestos de quem espera, e é informado que estavam 250 Euros (50 notas) no molho [...]
- sonhos «corivídicos»?

sexta-feira, 17 de abril de 2020

«A última sessão» - Dulce Cardoso

[.. é o título do filme de 1970, de Peter Bogdanovich...]; nesta narrativa de 23 - 03, D. M. C. evoca as idas ao Cinema na Luanda da Infância...

RECORTE INICIAL:
    Fazia finalmente parte do grupo das matinés dos mais velhos. É certo que isso acontecera por imposição da minha mãe e não por vontade da minha irmã e dos restantes membros do grupo, mas não me interessava. Ir ao Miramar sem ser atrelada a um adulto causou-me borboletas na barriga, sentia-me livre, ainda que não o soubesse nomear.
       Parámos à entrada, em frente dos cartazes, e o Rui tentou adivinhar a história do filme que íamos ver, Dois Homens e Um Destino. A minha irmã e a Editinha suspiraram pelo Paul Newman, O Robert Redford também é um grande borracho, disse a Anita. O Garrincha e o Nando garantiram a pés juntos que nenhuma mulher sorria como a Katharine Ross. Não conseguia repetir os nomes dos atores e parte das conversas da minha irmã e dos seus amigos era-me incompreensível. Quando o filme começou e me submergiu num mundo tecnicolor, estremeci com o impacto violento do som, a brisa arrepiou-me, o Miramar não tinha paredes e usava o céu como teto, a Baía de Luanda ficava logo atrás do ecrã gigante, havia os jardins em socalcos, era tudo tão diferente, tão maior, tão mais bonito do que o África, o cinema do nosso bairro. Era difícil seguir o enredo, a rapidez com que as legendas se sucediam atrapalhava-me a leitura, estava sempre a perguntar à minha irmã, O que é que eles disseram?, a maior parte das vezes recebia de volta uma cotovelada, Se não te calas nunca mais te trago.
[...]
[Página com as narrativas já publicadas até à data: AQUI]