segunda-feira, 27 de março de 2023

Elizabeth Taylor + Natalie Wood

Recorte(s) do livro AUTOBIOG. de Manuel S. Fonseca**, um dos que vão sendo lidos...; com as referèncias cinéfilas a «estruturarem» as evocações de Infância e de Juventude.  

RECORTES:

       Acabara de me apaixonar por Natalie Wood. Vira-a, acolhedora, a deixar James Dean deitar-lhe a cabeça no colo, em Rebel Without a Cause. O que ela, adolescente, fazia no filme, um sorriso triste, beijos só de lábios a roçarem lábios, sonhava eu que era comigo. [...]
    Nessas férias de 68, nas noites cacimbadas de Luanda, o Cinema Império passava um festival de reposições. Jurara promessas à ternura de Natalie Wood, mas noite é noite [...] e fui à descoberta..
     Exibia-se The Sandpiper. O filme, embora assinado por Vincente Minnelli, não é extraordinário. Apenas veículo para a arrasadora paixão que Elizabeth Taylor e Richard Burton viviam na vida real. Já a vira, à menina Taylor, Cleópatra [...] Agora, em The Sandpiper, numa praia californiana, Elizabeth era bastante menos do que a actriz de Cleópatra, era uma mulher. [...]

Manuel S. Fonseca, Crónica de África, 2023, p. 83

** emprestado, desde princípios de Maio, a P. G. (de AUDIOV.), por a mãe, a professora Vera G. [que D. conheceu, em 9394, no D. P. V], aí ser representada, no Anexo...]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

«A selva é obscena» - Fitzcarraldo (O diário da rodagem)

 - leitura retomada, às 9 e 15, ...]

IQUITOS, 8.12.80

[...] Dia parado, abafado e húmido. Inactividade junta-se a inactividade, nuvens imóveis fitam-nos, pesadas, do céu, a febre reina, a bicharada prolifera em proporções obscenas. A selva é obscena. Tudo é pecado, e por isso o pecado não dá nas vistas enquanto tal. As vozes na selva estão silenciosas, nada se mexe, paira sobre tudo uma ira indolente, inerte. Não há maneira de a roupa no estendal secar. Como se houvesse um encontro secreto, moscas gordas e reluzentes aglomeram-se sobre a mesa. [...]

                  Werner Herzog, A conquista do Inútil, Tinta-da-china, 2017, pp. 132

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

84 Charing Cross Road

 - D. lembrava-se do filme, de 87, com a Acção localizada entre 49 e 69 [...] - mas não de quando o visionou, num «TVcanal»; há dias que o tentava na «NFLX»...; conseguiu na tarde do feriado «pós-comboio de tempestades»... ; 
- na 1.ª carta, a co-protagonista argumenta preferir a expressão «especialistas em edições esgotadas» a «Livreiros Antiquários»...;

Outro RECORTE, ainda do início, da 1.ª «Carta-Resposta: [ai, ai, as legendas...]

East 95th Street, 14, Nova Iorque, 3 de Novembro de 1949

      Senhores: os livros já chegaram. O Stevenson é tão bom que embaraça [?...] as minhas prateleiras de [...?] Receio manusear tão suave pergaminho [?] e páginas amarelecidas. Habituada ao papel branco e às capas de cartão dos livros americanos, nunca pensei que um livro causasse tanto prazer ao tacto.

[e Hopkins ainda só com 50 anos....]

[referenciado entre as pp. 302 e 304 de O infinito num junco]

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Fitzcarraldo - (o diário da rodagem de) - «a conquista do inútil»

 - tradução de 2017, de original de 2004, terá sido apenas começado durante algum CdeT...; reencontrado neste Ciclo de Arrumações...; apresenta mancha(s) de algum «derrame», incluindo na «capa» de vegetal...talvez de Café... - coisa  que raramente acontece com D. ...- ...de que não se lembra [...]

- quanto ao filme - [V. H. AQUI] - que lhe deixou «funda impressão», viu-o no Estúdio (sobre o Império), talvez em... - lembra-se também de ter então lido vários artigos sobre tão «louca empresa» [...]

- a 30, alcançada a p. 122; recorte(s) daí:

MANAUS - IQUITOS, 2.8.80
Febre. No avião, mulheres gordas, suadas, indelicadas, [...] Voei para Iquitos com uma saudade relutante. Sensação opressiva de prosseguir algo que poderei, no fim, não conseguir levar a cabo. Se tudo isto se passasse noutro país, teria menos escrúpulos. As maiores insseguranças: os actores, o novo acampamento, o barco sobre o monte, a enormidade da organização que  ainda ninguém compreendeu, os índios, as finanças - a lista pode continuar. Vista do avião, a extensão da floresta virgem é assustadora, ninguém imagina, a não ser que tenha lá estado. Não precisamos de artistas da sintaxe.
[...] Andreas estava lá, e conferenciámos logo sobre o novo método que ele sugerira para transportar o barco por cima do monte. À primeira vista, o sistema com os seus arcos insufláveis parece óbvio, mas tenho duvidas, pois é necessária alguma experiência no seu manejo; por outro lado, não ficará bem no ecrã. [...]

Werner Herzog, A conquista do Inútil, Tinta-da-china, 2017, pp. 122-3

[perto das 12; G. O. elogiou o livro e tudo de W. H., oferecendo.se para copiar vários filmes para D.; Well...]

segunda-feira, 20 de junho de 2022

O menino que aprendeu a ler nos anúncios dos filmes (Jorge Calado)

 "Aprendi a ler por curiosidade. Deitado no chão de barriga para baixo, debruçado sobre a página três d'O Século gostava de decifrar os anúncios vistosos - embora a preto e branco - dos filmes em exibição nos cinemas de Lisboa: primeiro os títulos, depois e mais complicado, os nomes das estrelas, quase sempre estrangeiras. Já tinha decorado as letras do alfabeto mas não as sabia juntar. Por isso ia perguntando à minha mãe e ao meu pai: «como se lê g-u-e?», e assim sucessivamente. (Seria, talvez, o filme Sangue  e Arena, com Tyrone Power e Rita Hayworth). Até que um dia lhes anunciei que no Capitólio ou no Condes ia o filme tal e tal, e eles descobriram com espanto que era verdade! Poucos meses depois, quando completei cinco anos, tive duas prendas inusitadas: uma modesta sacola [...] e a primeira ida ao cinema, ao Éden, para ver o Aniki Bóbó (1942), de Manuel. de Oliveira. Os dois presentes estavam ligados: aprendera a ler motivado pelos bonecos do cinema."

Jorge Calado, Mocidade portuguesa - Olhares, 2022, p. 83

quarta-feira, 9 de março de 2022

«beavar canal»; Ruy Belo

NO WAY OUT

Sei hoje que sou pequeno
e não é esse o meu menor mal
mas faço meus os problemas
da gente de beavar canal

Nasci numa aldeia perdida
nestes caminhos de portugal
mas tanto tenho irmãos aqui
como os tenho em beavar canal

Eu a miséria da minha terra 
contemplei-a ao natural
enquanto vi no cinema
como se vive em beavar canal

 Mais do que a pedra mais do que a árvore 
o homem é para mim real
e tanto sofre a dois passos de mim
como sofre em beavar canal

Não há país que não seja meu
em qualquer parte morro pois sou mortal
mas aproveito a força da rima
para dizer que a minha rua é beavar canal

Morra eu dividido aos quatro ventos
seja o legado sentimental
fique no mundo onde ficar
deixo o meu coração a beavar canal

Ruy Belo, Homem de palavra(s), 1970

sábado, 19 de fevereiro de 2022

O menino que ia ao Chiado Terrasse OU «Dava um ano de ordenado...»

 - M. BIC., do 3.º Bloco, DISL., «atordoada» com a Escrita Saramag., veio colocar uma questão que «conduziu» a Almada e a Lobo Antunes....; 

-  R.  enviou-lhe o Endereço (da «Visão») onde «repousam» Crónicas de L. A. [por enquanto, e sabe-se lá até quando...];

- releu algumas e coloca aqui o recorte inicial da intitulada: «Dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida»   [de 2017]


(Susa Monteiro)

Porque cruel motivo nenhum cinema passa os filmes de que mais gostei na vida e dos quais tenho uma saudade infinita? Escrevo isto e lembro-me logo de uma frase de Dinis Machado em “O que diz Molero”: “Ó país de cristal que longe eu estou; dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida”. Dava mais do que um ano de ordenado, dava tudo para tornar a ver os desenhos animados da minha infância, que a tia Madalena nos levava a assistir aos domingos à tarde, num sítio chamado Chiado Terrasse, que de certeza já não existe e onde me sentia o garoto mais feliz do mundo. As luzes apagavam-se devagarinho, o écran iluminava-se e principiava a minha alegria, uma alegria como nunca voltei a sentir. Não apenas a alegria: um prazer sem fim. [...]:

https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/2017-12-21-dava-um-ano-de-ordenado-por-um-minuto-da-minha-infancia-perdida/


domingo, 31 de outubro de 2021

«A nossa imaginação...»

     Da crónica de hoje de MEC - «Os mortos irrequietos», ora aí vai uma frase que poderia «arrumar com» «recente polémica» sobre os efeitos de uma série na FLIX...: 

[...] A nossa imaginação é mais terrível do que a imaginação industrializada que vai parar aos filmes. 

É por isso que há contos e livros que fazem mesmo medo, ao contrário de quase todos os filmes de terror: porque o trabalhinho final é feito por nós. [...]

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

«o cinema como arte narrativa» («Cry Macho») e «aproximar-se do paraíso»

- ontem, pelas 15 e 40, na base da ESCAD. principal da Escola do Paraíso,  «pedindo segredo»,  depois de falar da MANIF. dessa manhã, M. G. (30 PRIM., grande «cine-leitor»), revelou a R. que, vai [...] [«e o resto não se diz»]

Foto do «DN»

[...] criadores como Eastwood não abdicam de cultivar o cinema como uma maravilhosa arte narrativa. O prazer visceral de contar histórias não será o paraíso, mas anda lá perto.

[sublinhados acrescentados]

sábado, 17 de abril de 2021

«papas feitas» OU mais «desgostos fílmicos»

 - desta vez, M. E. C. , em «Papas feitas»,  «arrasa» as «séries», que, de tão banais ou iguais que são... [...]

RECORTE INICIAL:

Estava eu a tentar ver o primeiro episódio de uma nova série e a perder a paciência quando me amaldiçoei por ser tão esquisito. Para cada série ou filme que consigo ver até ao fim há vinte ou trinta ou quarenta dos quais desisto logo ao princípio. O que é que se passa? Será que vi filmes e séries a mais, que é cada vez mais difícil interessar-me? [...]

domingo, 11 de abril de 2021

«desgostos fílmicos»...; M. E. C.

 - «Crónica sobre os primeiros filmes...», com alguns trocadilhos...; , a de 5 de Abril, só hoje, domingo, lida;

RECORTEs:

[...] Os meus pais chateavam-me para que explicasse porque é que não gostava. [...] Eu usava a minha fúria – de ter de estar a ver uma coisa que não me agradava – para dizer mal do filme, de preferência de uma maneira que amolgasse um bocadinho o prazer deles.

Essa prática crítica não ajuda apenas a dizer mal. A experiência de ver maus filmes ajuda-nos mais tarde a detectar os maus filmes [...]
Poupa-nos horas e dias e anos de desgostos fílmicos. Aprendemos a ler os sinais – os primeiros planos, as primeiras falas, o guarda-roupa, a qualidade dos enquadramentos – e assim desenvolvemos uma capacidade diabólica para fugir da cruz. [...]

quinta-feira, 25 de março de 2021

«Esplendor na relva», Ruy Belo

 - (re)localizado artigo de Luís Miguel Queiroz, no «Público», em 2015 -«Uma poesia que aprendeu a ver...» sobre o poema inspirado no  filme de Elia Kazan, roteirizando a sua possível datação e processo de escrita, com reprodução de manuscrito e dactiloscrito de mesmo [...]

ESPLENDOR NA RELVA

Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado a ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais

Ruy Belo, Homen de palavra(s); verificado na p. 333 da edição de 2009, de Todos os poemas 

sábado, 27 de fevereiro de 2021

A., a «Cinéfila» (Carta a...)

 A.:
O cinema «Ideal» é uma das raras «recuperações» de Cinemas «físicos» na Lisboa das últimas décadas...
Lá viu D., em Set. de 2014, com a General, a «adaptação pintada» de «Os Maias», por João Botelho, com presença (atrasada) deste...; 
Na Geografia de  Infância, era um dos Cinemas aonde D. ia, para as «Matinés» de sábado ou de domingo: aventuras, «coboiadas» e afins...; o outro era o «Cinearte», em Santos...; 
O «Ideal» de então tinha a alcunha de «Piolho», devido à literal proliferação desse bicho, na plateia «mal-cheirosa» de trabalhadores braçais, marítimos, operários, estivadores e outros...;
Foi lá que, após 75-76, viu «Saló...», de Pasolini («confusamente» integrado em ciclo de Filmes «Porno» - a Fase de então do «Ideal»...) ; saiu com «o estômago às voltas», e não foi só por causa dos cheiros... [então, a «Plateia», é melhor não a descrever...]
Depois, o Ideal teve a fase do «Cinema Indiano», por décadas, até ao Projecto acima referido: espaço para cinema de «qualidade»...

Tudo isto porque pode ver o filme de Abel Ferrara, também ele um cineasta «controverso», de 2014, na «RTP PlaY»; trata o «último dia» da vida de Pasolini; artista mais controverso, no Século XX europeu, dificilmente haverá...

Para ver «Saló...», convirá «proteger» o estômago... e o «resto»

Bons filmes, então, A.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

«ingmar bergman», Nuno Júdice

                                    TERAPIA

O ingmar bergman gostava de bolachas
maria, e tinha sempre com ele um pacote para ir
comendo quando o estômago lhe doía. Em vão
a Morte, para o distrair, lhe punha à frente
o tabuleiro de xadrez; de nada servia a jovem
mónica despir os seios para que o desejo
saísse de dentro da blusa; e foi inútil terem 
queimado a bruxa, à frente dos artistas 
ambulantes, como se alguém pensasse que 
ela trocaria o amor pelo Bode dos Infernos. Sempre,
o bergman tirava as bolachas do bolso e comia,
uma após outra, para que a Morte não lhe desse 
o xeque-mate, a mónica não voltasses a cobrir 
os seios e a bruxa não se benzesse em frente
do Bode. Não sei porquê, também eu gosto
de bolachas maria, e quando as como não penso
na Morte, ainda menos na jovem de seios 
despidos, e nem pensar que olho para a fogueira
onde a bruxa arde sem um grito. A única coisa
que me faz doer o estômago, como ao bergman,
é não saber, quando as tenho na boca, porque
é que as bolachas se chamam maria.

Nuno Júdice, Regresso a um cenário campestre, 2020, p. 77